quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Uma Páscoa à chinesa – por Davi Lemos

Foto: Reprodução

Davi Lemos*

O próximo domingo (19) marca o encerramento das celebrações da Semana Santa pelos cristãos de todo o mundo. Enquanto a Igreja Católica celebrou a Páscoa há uma semana, será nesse domingo agora a celebração da Páscoa pelos ortodoxos que seguem o Calendário Juliano, instituído pelo imperador Júlio César, em 46 a.C. Os cristãos católicos e protestantes seguem o calendário gregoriano, que é também o calendário comum no Ocidente.

Mas, embora haja uma diferença de datas e nos ritos próprios de cada uma das denominações cristãs, todos os crentes tiveram uma Páscoa à chinesa, ou seja, celebrada dentro de casa, remontando até mesmo aos costumes (não às circunstâncias) dos primórdios da era cristã, quando muitos eram martirizados por ódio à fé que professavam.

Por que a referência à China? Naquele país que vive sob o jugo de uma ditadura comunista, em tempo ou não de coronavírus, as celebrações e reuniões só podem ser realizadas dentro das casas. Enquanto os cristãos em outras partes do mundo preocupavam-se com a maneira como acompanhariam os cultos pelas redes sociais, cristãos chineses preocupavam-se sobre como e se celebrariam a fé que professam.

Entidades cristãs como o Ministério “International Christian Concern” denunciam que o Partido Comunista Chinês, em nome do combate à pandemia da Covid-19, tem demolido templos naquele país. As denúncias também chegam de organismos católicos, que tem no cardeal emérito de Hong Kong, Joseph Zen, uma das principais vozes a denunciar a perseguição a cristãos chineses.

A Igreja Católica na China tenta, sob o pontificado de Francisco, estabelecer um acordo com o Partido Comunista de forma a ser garantida a liberdade religiosa. Só tem relativa liberdade de culto a Igreja Patriótica, com padres e bispos que não estão sob obediência papal. A Igreja Católica ainda unida ao papa é chamada de Igreja subterrânea, devido às dificuldades encontradas pelos fiéis para manifestar publicamente o credo que professam.

Na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (Alegria do Evangelho), editada em 2013, o pontífice dizia que “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento”.

Cristãos do mundo todo aprenderam como é viver a fé a exemplo dos chineses, por conta da pandemia de coronavírus, no isolamento (ressaltando que as barreiras à liberdade religiosa não se encontram somente na ditadura chinesa). Bento XVI, citado por Francisco na mesma exortação, dizia que “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas um encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

A pandemia, o isolamento e a consciência de que a liberdade para realizar o que bem entender retornará, mas não para todos, podem transformar não somente a visão de cristãos que desejam retornar aos cultos e às ruas, mas podem proporcionar a todos um renascimento, uma Páscoa para crentes e descrentes. A Páscoa à chinesa pode indicar uma renovação da esperança.

*Davi Lemos é jornalista

17 de abril de 2020, 18:43

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