terça-feira, 16 de julho de 2019

São João, a voz e o deserto

Davi Lemos

O imortal Luiz Gonzaga cantava “a fogueira está queimando em homenagem a São João” e a luz irradiada pelo fogo é já o sinal de que o forró deve começar. E esse João homenageado – cuja devoção é tão ligada aos festejos juninos que marcam as tradições nordestinas e cujo modelo de vida é para católicos via segura de santidade – quem é ele? Que pode dizer-nos hoje, após dois mil anos?

O culto popular a São João Batista está ligado a uma série de lendas. Uma delas diz que a tradição de acender a fogueira rememora o ato de Santa Izabel, mãe de São João, para avisar a Maria, sua prima, que o filho dela havia nascido – seis meses após nasceria o Filho da Virgem Maria, Jesus, o Salvador, de quem o Batista seria o precursor.

O João histórico, filho de São Zacarias e de Santa Izabel (que o concebeu na velhice), vinha de linhagem sacerdotal e impressionava por sua rude aparência e por seu ascetismo radical. Entretanto, João trazia no coração uma mensagem que vai muito além daquilo que apresentava externamente. Ele ressuscitou o vigor e a força dos grandes profetas, sendo considerado o último do Antigo Testamento, vindo para dar testemunho do Messias.

A voz de João Batista atingia o coração de todos por ser um eco da voz de Deus. Ao seu redor a multidão se aglutinava e lhe fazia perguntas; muitos questionavam se ele era o Messias predito pelos profetas, mas ele ressaltou “não ser digno de sequer desatar-lhe as sandálias” (cf. Jo 1, 27). No mesmo evangelho de São João, disse que era a voz que clamava no deserto citada pelo profeta Isaías.

No relato de São Lucas, três perguntas iguais são feitas ao Batista: “O que devemos fazer?”. “Quem tiver roupa e comida sobrando doe ao irmão que nada tem”, responde primeiro aos israelitas (Cf. Lc 3,11). Depois, ao ser perguntado pelos funcionários públicos, orienta que não cobrem nada mais do que foi estabelecido (Cf. Lc 3,12s). E, finalmente, responde aos soldados: Não usem de violência para com ninguém e não façam denúncias falsas (Cf. Lc 3,14).

Quando perguntamos a atualidade dessas diretrizes de João, a impressão possível é que ele continua sendo como a voz que clama ao deserto dos corações humanos: insensíveis a quem necessita do básico, vorazes ao cobrar demasiado e velozes para agredir e para difamar. Lendo a Sagrada Escritura, ouvimos sair dos lábios de João que o homem só pode receber o que lhe foi dado do céu (Cf. Jo 3,27).

Neste ano a festa de Corpus Christi precedeu em quatro dias a festa litúrgica que lembra o nascimento do Batista. Ainda hoje, em todas as missas celebradas, são repetidas as palavras do primo de Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29) – a frase é repetida quando são consagrados o pão e o vinho transubstanciados, a partir de então, em Corpo e Sangue. “É necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30).

No dia 24, as fogueiras são acesas e a luz volta a iluminar a noite. As palavras de João, que foi martirizado por defender a verdade, serão re-ditas. Mas quem, nesse deserto, ouve essa voz que clama há dois mil anos?

*Davi Lemos é jornalista

22 de junho de 2019, 17:34

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