terça-feira, 14 de julho de 2020

Rapidinhas: Não lá na Band

Foto: Reprodução/Band

Davi Lemos

A demissão do jornalista Luís Ernesto Lacombe da TV Bandeirantes, onde comandou, até esta quinta-feira (25), o Aqui na Band, indica um avanço contra liberdade de expressão, liberdade de imprensa e o lugar desta como ambiente favorável ao debate amplo – ao menos é esse papel que se espera do jornalismo dito imparcial. Lacombe assumiu há algum tempo ser conservador, o que pode desagradar à maioria dos jornalistas, classe artística e acadêmica, na qual impera uma hegemonia do pensamento e de análise dos fatos à esquerda. O jornalismo imparcial, entretanto, não impede a expressão de vozes conservadoras ou progressistas.

Gota d´água

O diretor da atração Vildomar Batista, também demitido, e Lacombe levavam, com certa frequência, conservadores e alguns bolsonaristas para comentar episódios da política e da cobertura da pandemia da Covid-19. A gota d´água, que inclusive gerou uma reação do diretor de jornalismo da Band, Fernando Mitre, foi a participação do blogueiro Alan dos Santos, notório bolsonarista, e do comentarista político conservador e também aluno do filósofo Olavo de Carvalho, Flavio Morgenstern. Dos Santos, inclusive, é alvo da CPMI das Fake News e investigado no controverso inquérito sobre o mesmo tema iniciado pelo STF.

Sobre ouvir investigados

Ouvir investigados, réus em processos dos mais variados tipos ou mesmo assassinos como Suzane Von Richthofen ou o abusador de mulheres João de Deus não deveria ser motivo para a demissão de jornalistas. Afinal, entrevistar uma fonte não implica endossar o que é dito. Entrevistar conservadores, ainda que eles sejam confundidos com bolsonaristas até esse momento, tampouco pode indicar motivo para punição de profissionais de imprensa. Durante o mensalão, petrolão e outros escândalos, petistas e comparsas de outros partidos eram ouvidos, realizavam suas defesas. Nada disso foi motivo para acabar com programas.

Jornalismo cidadão

Há muito, e isso é ensinado inclusive em cursos de jornalismo, é defendida a realização de um “jornalismo cidadão” que contribua para a formação de “pessoas melhores”. Este jornalismo acaba assumindo um papel de tutor do politicamente correto, tirando do leitor ou espectador a faculdade precípua de interpretar os fatos que lhes são apresentados. Algumas confusões são feitas deliberadamente: confundir bolsonarismo ao conservadorismo; quando o primeiro pode ser, no máximo, parte do segundo. Ao mesmo tempo, genocídios cometidos por regimes de esquerda são rapidamente separados dos ideais de esquerda, socialistas ou comunistas.

Bolsa imprensa

Em Brasília, já se comenta que o novo ministro das Comunicações e genro do Sílvio Santos, Fábio Faria, tenta criar uma trégua entre o presidente Jair Bolsonaro e a imprensa. O diálogo seria feito na troca do armistício por verbas publicitárias. O silêncio de Bolsonaro tem demonstrado um recuo na retórica do enfrentamento à imprensa; a aproximação ao Centrão assemelha-o ao mais do mesmo do republicanismo de compadrio brasileiro. Mas seria feio ver, no “jornalismo imparcial”, a volta da circulação desimpedida de conservadores e bolsonaristas. Ficaria numa sinuca o jornalismo e, no ar, uma pergunta: quanto custou?

25 de junho de 2020, 19:29

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