segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

RAPIDINHAS: Câmara Eclesiástica de Salvador

Foto: Divulgação

Davi Lemos

O tucano Sérgio Nogueira apresentou um projeto de lei na Câmara Municipal de Salvador no qual define como padroeira da cidade a recém-canonizada Santa Dulce dos Pobres. A homenagem não deixa de ser justa, mas fica uma questão: com a separação entre Estado e Igreja, cabe a um poder público definir o padroeiro de uma cidade?

Xavier

É verdade que o padroeiro da cidade, São Francisco Xavier, é pouco conhecido até mesmo por fiéis católicos da capital, mas é justo destituí-lo do posto por falta de invocação dos soteropolitanos? A devoção a São Francisco Xavier, conhecido como “Apóstolo do Oriente”, marca a histórica presença dos jesuítas em nossa capital – outro famoso jesuíta, Padre Antônio Vieira, defendeu com fervor a devoção ao confrade.

São Salvador

É bom ainda recordar que a capital baiana tem outro padroeiro, ou melhor, Outro Padroeiro: São Salvador, que dá nome à cidade. Ou seja, o próprio Jesus. Pensou nisso o vereador ao apresentar o projeto? Francisco Xavier não pode ser destituído do posto, mas Irmã Dulce pode ser nominada pela Igreja co-padroeira da cidade. A Câmara, em nome do povo, poderia apresentar um pedido nesse sentido.

Precedente 1

A confusão entre as funções da Igreja e do Estado tem um precedente recente na primeira casa legislativa do Brasil. O vereador Henrique Carballal (PV) quis proibir o arrastão da Quarta-feira de Cinzas. A Prefeitura alegou que não poderia sancionar lei por motivação religiosa – Carballal, em resposta, deixou a vice-liderança do governo. Neto sancionaria o projeto de Nogueira? Se seguir o mesmo raciocínio, não. Neto também poderia, em nome do povo, apresentar um pedido ao arcebispo Dom Murilo Krieger, a quem compete definir, no caso, uma co-padroeira.

Precedente 2

O arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, Dom Murilo, já definiu um co-padroeiro de uma paróquia soteropolitana após a canonização de um santo. Trata-se da Paróquia Nossa Senhora dos Alagados e São João Paulo II, no bairro do Uruguai. Note-se que, neste caso, há uma relação com Irmã Dulce também. Ela foi também conhecida como “Anjo Azul dos Alagados” e, São João Paulo II, quando visitou a Paróquia de Alagados na década de 1990, também visitou a santa soteropolitana em seu leito de enferma. Bom recordar que, no dia de sua canonização, Santa Dulce dos Pobres tornou-se padroeira de paróquia no Saboeiro.

19 de novembro de 2019, 19:03

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