quinta-feira, 4 de junho de 2020

Quaresma, quarentena e jejum presidencial

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por Davi Lemos*

Muitos cristãos, atendendo a um pedido do presidente da República, foram jejuar neste domingo (5), Domingo de Ramos para os católicos, para conter a pandemia da Covid-19. Tanto no meio protestante quanto no católico, a convocação presidencial causou discussões. Dentre os primeiros, o fundamental era debater se era conveniente atender a um pedido do chefe do Executivo nacional, se haveria aí uma intenção política travestida de devoção religiosa. Entre católicos, a indagação: convocar jejum para o domingo, o Dia do Senhor (Dies Domini)? Católicos, mesmo na quaresma (período dedicado a penitências), não realizam jejum aos domingos.

A admoestação contra o jejum dominicial remonta ao início da Igreja, nos primeiros séculos, quando nasceu o entendimento de que, no dia em que se rememora a ressurreição, não devem ser realizadas penitências nem jejuns. “Jejuar em dia de domingo é grande escândalo”, já denunciava Santo Agostinho no século V. Na Constituição Eclesiástica dos Apóstolos, do século IV, era dito: “Se um membro do clero, em dia de Domingo, venha a ser surpreendido a jejuar, seja deposto; se for um leigo, seja excluído”.

Mais recentemente em uma encíclica dedicada a explicar o sentido do Domingo, o papa São João Paulo II dizia: “Para além das diversas expressões rituais que podem variar com o tempo segundo a disciplina eclesial, resta o fato de o domingo, eco semanal da primeira experiência do Ressuscitado, não poder deixar de conservar o tom da alegria com que os discípulos acolheram o Mestre: ‘Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor’ (Jo 20, 20)”.

Muitos grupos católicos criticaram o presidente que, mesmo dizendo ser fiel católico, recomendou o jejum dominical. O presidente, por assim dizer, parece ser como a maioria dos católicos “não praticantes” ou praticantes que desconhecem a doutrina sobre o domingo. A caridade cristã mandaria que ele fosse catequizado; esta é, inclusive, uma das obras de misericórdia ensinadas pela doutrina católica como própria da quaresma: ensinar aos ignorantes.

Católicos e protestantes que pediram o jejum dominical esqueceram outra obra de misericórdia fundamental. Cristo disse àqueles que seriam bem-aventurados e chamados ao Seu Reino: “estive preso e vieste me visitar”. Quantos recusaram dar um abraço em Susy, a transexual abraçada por Dráuzio Varela? Cristo, por bem, não listou crimes que impediriam a visita ao preso – também não sabemos qual seria o crime do “Bom Ladrão” crucificado ao lado de Cristo, a quem Ele prometeu estar, ainda naquele dia, no paraíso – São Dimas, o bom ladrão, tornou-se assim o primeiro santo canonizado. Um amigo religioso disse-me: “Se Cristo parasse no crime de São Dimas, ele não seria hoje para nós um santo. O mesmo deveria ser feito sobre esse transexual, sem deixar de repetir ‘vá e não peques mais'”.

Retornando às reflexões sobre este momento de pandemia, Santo Tomás de Aquino, que viveu no século XIII, ensinava que os momentos de crise deveriam fazer as pessoas crescerem em virtudes. O que vemos nesse momento de pandemia de coronavírus é o inverso. Muitos cristãos padecem de um medo atroz e paralisante (também compartilhado por governantes e pela imprensa, que não possibilitam exposição a visões menos apocalípticas – mas esse pode ser tema de outro artigo).

Ainda segundo Tomás, um dos traços mais importantes da virtude da fortaleza é resistir inclusive diante da possibilidade da morte – a maneira de resistir é amar o bem e exercitar a paciência. Santa Teresa de Jesus, no século XVI, ensinou que “a paciência tudo alcança”. A paciência é plenamente vivida quando, mesmo sofrendo, nutrimos a esperança.

O filósofo católico alemão Josef Pieper (1904 – 1997) escreveu que “só um catolicismo pequeno-burguês, acomodado a valores nada cristãos, pode fazer uma pessoa desfazer-se de medo”. Falta confiança a muitos cristãos que deveriam, neste momento, agir como “sal da terra” e “luz do mundo”. O também teólogo alemão, mas protestante, Jürgen Moltmann, fala da natureza iconoclasta das democracias em um trecho de seu livro “O Deus Crucificado”. A democracia teria sua realidade em tirar a apatia do povo como sujeitos, o que implicaria a participação responsável nos processos de decisão política.

Não agrada a Moltmann a mistura entre religião e estado. Teólogo da esperança, Moltmann diz que “uma ética do medo vê as crises, uma ética da esperança reconhece as possibilidades inerentes às crises”. O medo conduz à insanidade e a não saber identificar o dano das decisões desesperadas. Retornando a falar do Domingo de Ramos ou de jejum, a liturgia católica deste dia cita trecho do Livro do Profeta Isaías: “O Senhor deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida”. A pandemia mata muitos e deprime tantos outros; seria importante ouvir esse conselho do profeta.

*Davi Lemos é jornalista

06 de abril de 2020, 15:39

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