domingo, 10 de maio de 2026

Paraguaçu, um rio que pede socorro – por Gustavo Falcón

Da varanda da minha casa basta estender as mãos para tocar nas águas do Paraguaçu, o maior rio genuinamente baiano. Às vezes, as águas da maré que adentram pela baía do Iguape alcançam as paredes imensas da Barragem de Pedra do Cavalo. Sim, porque com o represamento do rio, o trecho que vai de Muritiba à barra, no encontro com o oceano, passou a ser uma espécie de extensão do mar, não mais o desaguadouro dele.

Seus habitantes pretéritos já o chamavam mesmo de mar grande. Na parte represada uma enorme lâmina de água inundou baixios e mesmo elevados, formando um grande lago artificial que hoje abastece de água potável Salvador e Feira de Santana, os dois centros mais populosos do estado.

Na intimidade que vivo com o Paraguaçu, contemplando da varanda de casa ou da mesa da cozinha durante as refeições, esse belo cenário cercado de montanhas onde os pobres constroem lindas casinhas coloridas, penso todos os dias o quanto somos irresponsáveis com nosso patrimônio natural.

Dejetos, sacos plásticos, garrafas, todo tipo de objeto doméstico indesejado é atirado no seu leito diariamente sem que qualquer pessoa ou mesmo autoridade ligada aos assuntos ambientais se dê conta da agressão a elemento tão especialmente belo na paisagem da cidade, tão secularmente generoso em fornecer alimentos à população ribeirinha, inclusive a muitas famílias que dependem da pesca do siri para sua sobrevivência.

Numa cidade tombada pelo patrimônio histórico e artístico nacional, visitada regularmente por turistas de dentro e de fora do Brasil, que depende visceralmente disso, chega a ser gritante o descaso que todos têm por esse patrimônio que pode ser, com facilidade, explorado economicamente via roteiros culturais dos mais sofisticados.

O desinteresse e a indiferença são tamanhos que muitos cachoeiranos, às vezes de idade avançada, jamais fizeram um percurso pelo leito do rio que banha a cidade, desconhecendo locais maravilhosos como São Francisco e Santiago do Iguape, engenhos e edificações coloniais implantadas ao longo do seu curso.

Mas o mais impressionante é que as instituições públicas não se sensibilizem com a importância e o potencial do Paraguaçu. Nesse trecho, ele foi contemplado pelo Baía Azul, um programa de saneamento que custou ao estado um empréstimo de US$ 600 milhões no Governo Paulo Souto. Só que os esgotos continuam contaminando suas águas.

A Embasa, a quem cabe pagar essa grana tomada pelo estado, fatura uma enormidade com a comercialização da água feita a partir da coleta no Recôncavo. No entanto, não oferece qualquer contrapartida à população. Nem mesmo redução na tarifa que vem subindo escandalosamente.

A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia que trouxe consigo uma espécie de esperança para a reversão do decadente quadro regional, parece viver uma alienação generalizada, quando devia liderar o debate público e a pesquisa na sua extensão a respeito de temas como esse, de grande dimensão comunitária.

Alguém precisa, em algum lugar, na Promotoria Pública, na Câmara de Vereadores, na Universidade local, na Prefeitura, nas associações e ONGs colocar na agenda do estado a questão ambiental e dentro dela o problema do Paraguaçu que aqui, diferentemente da Chapada Diamantina, onde está sendo contaminado por agrotóxicos, precisa ser saneado, integrado às atividades turísticas e à vida cotidiana da população local.

Nossos rios, como o Paraguaçu, de grande presença histórica e relevância ambiental, precisam ser tratados com o devido respeito e muitas vezes isso só exige cumprimento da lei e funcionamento das instituições. O que não dá é para não se indignar com tamanho descaso, tanta indiferença e burrice para com um patrimônio que tanto dá e pouco pede para continuar embelezando, enriquecendo, encantando todos que com ele travam contato.

Gustavo Falcón é jornalista, escritor, doutor em História Social pela UFBA e consultor de Programas de Governo. Ele escreve sobre Política às segundas-feiras no Toda Bahia. E-mail: gustavo.falcon@todabahia.com.br

09 de novembro de 2015, 07:00

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