terça-feira, 16 de julho de 2019

O furacão que ensina

José Carlos Aleluia

Em agosto de 2005, o furacão Katrina levou ao rompimento de dois diques, inundando 90% de Nova Orleans, nos Estados Unidos. O desastre acabou com praticamente toda a estrutura do ensino público da cidade. Treze anos depois, o índice de graduação do ensino médio subiu de 56% para 73% e o ingresso direto à universidade cresceu de 22% para 33%. O motivo? Um novo modelo de educação desburocratizado e desmembrado do Estado.

Também em 2005, o município de Mata de São João teve uma da piores notas da Bahia no Índice de Desenvolvimento da Educação Basica (IDEB). Atualmente, mais que dobrou sua pontuação (2,5 para 5,7 entre mais novos; 1,5 para 4,6 entre mais velhos). Tem hoje a melhor média da Região Metropolitana de Salvador, além de abrigar a escola com a melhor nota do estado. Como fizeram? Profissionalizando a educação municipal com gestores advindos da iniciativa privada e valorizando a meritocracia no magistério.

Em 2007, um empresário de Morro do Chapéu resolveu que daria um computador ao estudante que obtivesse a melhor média escolar ao longo do ano. O exemplo ganhou a atenção da cidade, cresceu e hoje conta com o auxílio de mais de 80 comerciantes que organizam a premiação “Aluno Nota Dez”, o Oscar da Educação local. Resultado: escolas onde o índice de evasão é quase zero, IDEB acima da média estadual e o acolhimento inédito da educação local pela comunidade.

O Brasil gasta, proporcionalmente, mais em educação do que a média de países desenvolvidos no setor, como Argentina, Chile, Colômbia e Estados Unidos. Estes exemplos mostram que, tão importante quanto o investimento, é a necessidade de recriar uma estrutura de educação eficiente e focada em resultados. A Prefeitura de Salvador está entendendo isso.

Um projeto de indicação do vereador Alexandre Aleluia aprovado em 2017 trouxe ao debate o modelo “charter school”, que foi adotado em Nova Orleans. Em vez do poder público administrar escolas, o Estado se torna um “superintendente”, que encaminha seus alunos para instituições privadas, financiando suas matrículas e monitorando o desempenho. Foi o embrião para o programa Pé Na Escola, que vai oferecer, já em 2019, 10 mil vagas gratuitas para crianças em idade pré-escolar na rede privada da capital baiana. Uma inovação que tem tudo para ser ampliada no Brasil, e principalmente na Bahia, onde este ano chegou-se à marca do pior ensino médio entre os estados, em avaliação do IDEB.

O Furacão Katrina destruiu 110 das 126 escolas da rede pública de Nova Orleans. Há quem aprenda com tragédias. Que este desastre monumental da educação pública do nosso estado na última década nos ensine sobre a necessidade de refundar o modelo que queremospara educar nossos jovens.

José Carlos Aleluia é deputado federal

26 de dezembro de 2018, 12:42

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