sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Navio que trouxe livraria flutuante para Salvador ancorou em cima de assentamento de Exu

Foto: Andre Motta de Lima e Leandro Duran

O navio Logos Hope, operado pela organização de caridade cristã alemã GBA Ships eV,  que apresenta uma livraria móvel como parte do movimento internacional de divulgação cristã, atracou em Salvador no último dia 25 e trouxe polêmicas.  Dias antes da chegada da livraria flutuante, a organização cristã OM Ships International, responsável pelo navio, fez uma publicação nas redes sociais na qual afirmou que a embarcação estaria se dirigindo a uma cidade “conhecida pela crença do povo em espíritos e demônios”. Ao chegar, os tripulantes não imaginavam o que lhes esperava nas águas da Baía de Todos os Santos. Para começar, bem perto de onde o navio atracou, a uns cinco metros de profundidade, no Porto de Salvador, está instalado o que as religiões de matriz africana chamam de assentamento de Exu. O que nem o comandante do navio biblioteca deve saber é que Exu pode não ser santo, mas de demônio também não tem nada.

De acordo com matéria do jornalista Alexandre Lyrio, do Correio Online*, tendo como base uma rocha afundada em uma área que separa a Codeba do Ferry Boat, o assentamento de Exu foi descoberto em uma operação arqueológica que virou objeto de estudo da ialorixá, mestre em estudos étnicos e africanos, doutora em arqueologia e arqueóloga mergulhadora Luciana de Castro. Autora do livro O Exu Submerso – Uma Arqueologia da Religião e da Diáspora no Brasil – ela confirma que o assentamento foi colocado ali como um guardião da Baía, protetor dos marítimos e feirantes de São Joaquim.

Provavelmente instalado no local ainda na década de 1970, ou seja, após a construção do terminal do Ferry Boat, o Exu submerso foi descoberto em um trabalho de licenciamento ambiental realizado pelo marítimo profissional e fotógrafo André Lima, o arqueólogo subaquático Leandro Duran e o marítimo Mário Mukeka.

Em 2010, os três foram contratados para elaborar um relatório arqueológico para uma obra que seria realizada pelo Porto de Salvador. Nesta operação, Leandro e André se depararam com o Exu. “Ele estava em cima de um enrocamento [conjunto de blocos de pedra ou outro material colocado dentro da água para servir como lastro] semelhante a esse aí”, disse André Lima, apontando para uma daquelas grandes rochas usadas para formar um quebra-mar. “A gente não mexeu nele, né? Deixamos como estava lá. Porque a ideia era essa, né?”, afirmou André, segundo Lyrio.

Leandro e André têm dúvida até hoje sobre quem fotografou o Exu, por isso dividem a autoria da imagem. “À primeira vista ficou bem claro que não se tratava de nada jogado, mas de um equipamento religioso que foi colocado ali no fundo. Também pensei que houve algum tipo de manutenção, porque estava cuidado, não tinha algas ou incrustações. Estava limpo”. A imagem registrada, bem nítida, foi parar no Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Sergipe, onde Luciana fazia um estudo e viu a foto por “acaso”.

As informações são do Correio Online*.

04 de novembro de 2019, 07:09

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