sábado, 6 de junho de 2020

Artigo: “Moro, a pizza e o castelo de cartas”

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Marcia Gomes

A despeito de a previsão do tempo para este sábado (2) ter apontado temperaturas amenas em Curitiba (22º/10º), o dia outonal registrou clima quente na capital paranaense. O Brasil aguarda, ansiosamente, por tomar conhecimento das revelações do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro. No entanto, sem previsão para concluir os trabalhos, após sete horas de depoimento, os delegados pediram pizza.

O (super) ex-juiz da Lava Jato, passou a tarde a depor na sede da Superintendência da Polícia Federal, com meia dúzia de manifestantes à porta – uns pró-Bolsonaro, outros tantos torcendo pelo depoente. Na oitiva, ele apresenta as provas que justificam ter afirmado que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tentou interferir nas investigações da PF.

A depender do impacto do que for provado, as revelações de Moro poderão, ou não, fazer a tampa da panela de Bolsonaro ir parar no teto. Na verdade, o destempero começou cedo, com o presidente postando em seu perfil no Instagram desabafo alusivo ao seu ex-superministro, a quem chamou, sem cerimônia, de “Judas”:

“Os mandantes estão em Brasília?
– O Judas, que hoje deporá, interferiu para que não se investigasse?
– Nada farei que não esteja de acordo com a Constituição.
– Mas também NÃO ADMITIREI que façam contra MIM e ao nosso Brasil passando por cima da mesma Constituição”, vociferou.

Na sala de justiça

Enquanto isso, (literalmente) na sala de justiça, Moro solta o verbo, pondo à mesa as provas do que o levou a deixar o ministério menina-dos-olhos de Bolsonaro. O presidente se descabela, esbraveja e dá indiretas. Moro não perde a fleuma.

Em matéria publicada na edição de 6/5 de 2020 da revista VEJA, o ex-ministro da Justiça chega a admitir que gosta do presidente, elogia a competência técnica do corpo de ministros, mas tesa que não vai se deixar chamar de mentiroso. Ao ler a publicação, quase se pode ouvir seu tom de voz macio, pausado, tranquilo. É um gentleman.

Famiglia Bolsonaro

Há mais que a vaidade de ambos em jogo, decerto. Caso Moro prove que Bolsonaro tentou interferir na PF, politicamente, em proveito próprio e de seus filhos investigados, o presidente poderá de fato ser encurralado, beirando o precipício do impeachment. E o que não falta é quem possa acelerar sua queda despenhadeiro abaixo. Ele e seus filhos 01 (Flávio), 02 (Carlos) e 03 (Eduardo).

Flávio pôs as barbas de molho, está meio que escanteado, desde que seus advogados não conseguiram frear as investigações que apontam na direção do esquema de “rachadinha”, no qual está implicado, quando da época em que era deputado estadual no Rio de Janeiro. Um horror.

A Polícia Federal identificou o vereador Carlos Bolsonaro (RJ) como articulador do esquema criminoso de fake news utilizado para atacar e acuar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e integrantes do Congresso, segundo a Folha de S.Paulo. Algo escabroso.

Um documento encaminhado à CPMI das Fake News mostra que um computador do gabinete de Eduardo foi usado para criar uma página de ataques virtuais a adversários políticos. Vergonha alheia.

O caçulinha, Jair Renan, ainda não é político, como os irmãos e o patriarca, mas esta semana também ganhou destaque no noticiário. Foi expulso de uma plataforma de games, após ironizar a gravidade da Covid-19. Tal pai, tal filho.

Aperto de mente

Somente esta semana, foram muitos os abalos e apertos na mente de Jair Bolsonaro. Na esteira da saída de Moro de Brasília, o ministro do STF Alexandre de Moraes travou a nomeação de Alexandre Ramagem – camarada dos Bolsonaros – para assumir o comando da Polícia Federal.

Na sequência, por unanimidade, o STF votou com o ministro Alexandre de Moraes (sempre ele), que impediu a suspensão dos prazos de resposta dos pedidos de acesso à informação nos órgãos públicos durante a pandemia do novo coronavírus.

Ainda em terras de STF, o ministro Celso de Mello, autorizou a abertura de inquérito para apurar as acusações de racismo do ministro da Educação, Abraham Weintraub – aqueles que grafou “imprecionante” com “c” -, em relação a chineses.

Para completar a semana, hoje, o ministro Luís Roberto Barroso (STF) derrubou a (transbordante a ódio) expulsão de funcionários da Embaixada da Venezuela em Brasília e consulados em Belém, Boa Vista, Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo.

E assim segue desmoronando, naipe a naipe, o castelo de cartas de Jair Bolsonaro. E daí?

Em tempo: existem 26 pedidos de impedimento contra o presidente Bolsonaro na mesa do deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), a quem cabe levar a plenário a matéria. Mas, Maia avisou esta semana que a prioridade, no momento, é enfrentar o novo coronavírus e não deflagrar um processo de impeachment.

02 de maio de 2020, 23:28

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