sábado, 21 de julho de 2018

A traição de Kuczynski – por Mario Vargas Llosa

Por Mario Vargas Llosa*

O presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, se salvou por milagre em 21 de dezembro de ser destituído por “permanente incapacidade moral” por um Congresso no qual uma maioria fujimorista já tinha derrubado cinco ministros e mantinha seu Governo paralisado.

A acusação se baseava em confissões da Odebrecht, no Brasil, afirmando que nos anos em que Kuczynski foi ministro da Economia e primeiro-ministro a empresa brasileira tinha pagado a uma empresa dele a soma de 782.207,28 dólares. Na hora da votação, dividiram-se os parlamentares do APRA, da Acción Popular, da esquerda e — oh, surpresa — os próprios fujimoristas, 10 dos quais, encabeçados por Kenji, filho de Fujimori, se abstiveram. Os que respaldaram a moção ficaram oito votos abaixo dos 87 que faltavam para tirar o presidente.

A sessão foi precedida por um debate nacional no qual todas as forças democráticas do país rechaçaram a tentativa fujimorista de defenestrar um chefe de Estado que, por mais que tenha pecado por negligência e conflito de interesses ao não documentar legalmente sua separação da empresa que prestou serviços à Odebrecht enquanto era ministro, tinha direito a uma investigação judicial imparcial diante da qual pudesse apresentar seu depoimento, e a aparente nova tentativa do fujimorismo de garantir o poder.

Vale a pena recordar que Kuczynski ganhou raspando as eleições presidenciais, e graças aos votos de todas as forças democráticas, esquerda incluída, que acreditavam em sua firme e repetida promessa de que, se chegasse ao poder, não haveria indulto para o ex-ditador condenado a 25 anos de prisão por seus crimes e violações aos direitos humanos. Houve manifestações em favor da democracia e muitos jornalistas e políticos independentes se mobilizaram contra o que consideravam (e era) uma tentativa de golpe de Estado. Em um discurso emotivo (pelo qual o felicitei), o presidente pediu perdão aos peruanos por aquela “negligência” e assegurou que, no futuro, abandonaria sua passividade e seria mais enérgico em sua ação política.

O que muito poucos sabiam é que, ao mesmo tempo em que tomava essas atitudes como vítima do fujimorismo, Kuczynski negociava às escondidas com o filho do ditador e com o próprio ditador uma troca de favores suja: o indulto presidencial ao réu por “razões humanitárias” em troca dos votos que evitaram seu impedimento. Isso explica a misteriosa abstenção dos 10 fujimoristas que salvaram o presidente.

As vilezas infelizmente fazem parte da vida política em quase todas as nações, mas não acredito que haja muitos casos em que um governante perpetre tantas ao mesmo tempo e em tão pouco tempo. Os testemunhos são surpreendentes: jornalistas de valor, como Rosa María Palacios e Gustavo Gorriti, que se desdobraram em sua defesa contra a moção de vacância, e o ex-primeiro-ministro Pedro Cateriano, que também travou uma batalha na mídia para impedir o impeachment, receberam garantias do próprio Kuczynski, dias ou horas antes que se anunciasse o indulto, de que não o faria, e que os rumores em contrário eram meras operações psicossociais dos adversários.

Assim, quem nas últimas eleições presidenciais votou, como eu, em Kuczynski acreditando que em seu mandato não haveria indulto para o ditador que arruinou o Peru, cometendo crimes terríveis contra os direitos humanos e roubando à vontade, contribuímos sem saber nem querer para levar outra vez ao poder Fujimori e suas hostes. Porque, não nos enganemos, o fujimorismo tem agora, graças a Kuczynski, não só o controle do Parlamento, com os 40% de eleitores que nas eleições respaldaram Keiko Fujimori, como também controla o Executivo, pois Kuczynski, com seu pacto secreto, não usou o ex-ditador, mas sim se tornou seu cúmplice e refém. Mais adiante deverá servi-lo. Caso contrário, seus ministros continuarão caindo ou ele será realmente defenestrado. E dessa vez não haverá democratas que se mobilizem para defendê-lo.

A traição de Kuczynski permitirá que o fujimorismo se transforme no verdadeiro Governo do país e apronte de novo das suas, a menos que a cizânia entre os irmãos, os partidários de Keiko e os de Kenji (este último preferido pelo pai), se mantenha e se agrave. Serão tão idiotas a ponto de perseverar nessa rivalidade agora que estão em condições de recuperar o poder? Pode acontecer, mas o mais provável é que, estando Fujimori solto para exercer a liderança (mal foi anunciado o indulto, sua saúde melhorou) se unam; se persistirem em suas querelas, o poder poderia esfumar-se de suas mãos.

No momento, o projeto fujimorista para derrubar os promotores e juízes que poderiam aprofundar a investigação, já insinuada pela Odebrecht, de que Keiko Fujimori recebeu dinheiro da celebérrima organização para suas campanhas eleitorais, pode ter sucesso. Recordemos que a submissão do poder judiciário foi uma das primeiras medidas de Fujimori quando deu o golpe de Estado em 1992.

O fujimorismo já tem controle direto ou indireto de bom número de meios de comunicação no Peru, mas alguns, como El Comercio, lhe escaparam das mãos. Até quando esse jornal poderá manter a imparcialidade democrática imposta pelo novo diretor desde que assumiu seu cargo? Não é preciso ser adivinho para saber que o fujimorismo, encorajado pela recuperação de seu caudilho, não cessará até conseguir substituí-lo por alguém menos independente e objetivo.

Depois desse descalabro democrático, em que condições o Peru chegará às eleições de 2021? O fujimorismo as aguarda com impaciência, já que é mais seguro governar diretamente do que por meio de aliados de lealdade duvidosa. Não poderia Kuczynski traí-los também? As próximas eleições são fundamentais para que o fujimorismo consolide seu poder, como naqueles 10 anos em que gozou de absoluta impunidade para seus malfeitos. Em seu discurso de desculpas, Kuczynski chamou de “erros e excessos” os assassinatos coletivos, torturas, sequestros e desaparecimentos cometidos por Fujimori. E este lhe deu imediatamente razão, pedindo perdão aos peruanos que, sem querer, “tinha desapontado”. Só faltou que se abraçassem.

Felizmente, a realidade costuma ser mais complicada que os esquemas e projeções resultantes das intrigas políticas. Será Kuczynski imaginou que o indulto incendiaria o Peru, onde, enquanto escrevo este artigo, as manifestações de protesto se multiplicam por toda parte apesar das investidas policiais? Suspeitou que partidários honestos renunciariam a seu partido e a seu gabinete? Eu nunca teria imaginado que por trás da figura bonachona desse tecnocrata aparentemente bondoso se escondesse um pequeno Maquiavel, hábil em intrigas, falsidade e mentiras. Da última vez que nos vimos, em Madri, disse a ele: “Tomara que você não entre para a história como o presidente que anistiou um assassino e um ladrão”. Ele não assassinou ninguém ainda e não acredito que seja capaz de roubar, mas, tenho certeza, se chegar a se infiltrar na história, será apenas pela infame credencial de ter traído os milhões de compatriotas que o levamos à presidência.

*Artigo publicado originalmente no site El País em 31 de dezembro de 2017

03 de Janeiro de 2018, 18:43

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