domingo, 5 de abril de 2020

A Pipoca de Saulo converteu mais um chato em folião

Foto: Davi Lemos

Davi Lemos*

A Pipoca de Saulo é realmente tudo o que comentam? Quando a mencionam, imagina-se que seja ela a oitava maravilha, se não do mundo, do maior carnaval do planeta, o de Salvador. Numa folia tão extensa que reúne mais de 50 atrações diárias – não parei para fazer as contas de quantas sejam de fato – por que uma específica atrai tantos foliões que, apesar dos momentos de aperto, chegam e saem em êxtase?

A convite das amigas Mariana Pinheiro (aniversariante de ontem) e Paula Verena, vizinhas minhas na Cidade Baixa, topei ir à famosa pipoca – há quase uma semana, haviam-me já arrastado para o Furdunço. Detalhe: acompanho o Carnaval de Salvador desde 2001, quando comecei a atuar em redações de diferentes veículos da capital, mas esses foram as primeiras idas sem a obrigação de cumprir uma pauta.

O que mudou? O que era antes um mero observador tornou-se mais um folião no meio da “muvuca” desejando somente se divertir … e muito. Eu conhecia nem metade das letras das músicas, mas, observando o balanço dos pipoqueiros, pouquíssimos ali estavam interessados realmente em saber qual era a música: o ritmo basta e decorar alguns refrões é suficiente para seguir no compasso da folia.

Lembro-me das décadas de 1980 e 1990, quando o máximo da emoção no Carnaval de Salvador era ir atrás do Chiclete com Banana. Bom, baseado no que ouço falar, ser hoje saulista é como o que outrora significava ser chicleteiro. Mas repito: meus conhecimentos carnavalescos são miseráveis; não levem minha análise como se lessem a de um especialista.

Mas a pergunta que não quer calar? A Pipoca de Saulo é realmente tudo isso que comentam? É pelo menos muito melhor do que eu imaginava. Passeando pelas canções dos antigos carnavais – as únicas que eu conseguia acompanhar sem ter que esperar as primeiras levadas – até chegar aos sucessos mais recentes, a Pipoca de Saulo parece ser um negócio que busca abraçar a todos: quem gosta de música mais calma está lá; quem gosta do empurra-empurra, também pode ir lá; até quem não gosta de Carnaval ou, até ontem, não gostava também pode ir lá.

A Pipoca de Saulo é então a perfeita metonímia de tudo o que é o Carnaval de Salvador: uma república do mexe-mexe beija-beija aperta-aperta canta-canta pula-pula em que todos, inclusive o Momo, são reis. Valeu, Mariana e Paula, pelo convite. Valeu, Saulo, por ter exterminado mais um chato no Carnaval de Salvador.

*Davi Lemos é jornalista

22 de fevereiro de 2020, 18:04

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