sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A festa é de Pedro e de Paulo também

Foto: Reprodução

Davi Lemos*

“Na realidade, eram como um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho”. O relato é do grande Santo Agostinho de Hipona em sermão realizado no ano 395 a respeito de São Pedro e de São Paulo, apóstolos de Jesus Cristo martirizados em Roma, por ordem do imperador Nero; Pedro, por volta do ano 64 d.C; Paulo, três anos depois. Os dois são celebrados no dia 29 de junho, embora os festejos juninos que marcam o Nordeste “esqueçam” o “Apóstolo dos Gentios”.

Segue Agostinho: “Pedro foi à frente. Paulo o seguiu. Celebramos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue dos apóstolos. Amemos a fé, a vida, os trabalhos, os sofrimentos, os testemunhos e as pregações destes dois apóstolos”. E que homens de personalidade forte. Nenhum dos dois, segundo uma lógica humana, seria escolhido como principais líderes da Igreja Primitiva.

Pedro era Simão, pescador, homem simples e rude. Homem de ímpeto indomável; chegou a negar o Cristo por três vezes (cf Lucas 22, 54-62). Paulo era Saulo, o fariseu erudito e implacável perseguidor dos primeiros cristãos, ao ponto de o Cristo tê-lo questionado: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9, 4). Nenhum dos dois, como ressaltei, teria aos olhos comuns as qualidades para liderar a Igreja que nascia.

Na solenidade de São Pedro e São Paulo de 2012, o atualmente papa emérito Bento XVI salientou que a unidade entre ambos adquiriu um significado particular em Roma. “De fato, a comunidade cristã desta cidade viu neles uma espécie de antítese dos mitológicos Rômulo e Remo, o par de irmãos a quem se atribui a fundação de Roma”. Segundo o papa emérito, a tradição cristã sempre considerou Pedro e Paulo inseparáveis, embora os conflitos entre ambos não tenham sido poucos.

A Carta aos Gálatas, por exemplo, traz o episódio em que Paulo repreende Pedro por este não ficar próximo dos gentios, ou seja, aqueles que eram cristãos, mas não de origem judaica. Paulo denunciara, assim, a hipocrisia de Pedro. Mas, ainda assim, Bento XVI também compara e difere a dupla apostólica com o primeiro par de irmãos citados nas sagradas escrituras: Caim e Abel.

“Enquanto nestes vemos o efeito do pecado pelo qual Caim mata Abel, Pedro e Paulo, apesar de ser humanamente bastante diferentes (…), realizaram um modo novo e autenticamente evangélico de ser irmãos, tornado possível precisamente pela graça do Evangelho de Cristo que neles operava”, ressaltou o papa reinante em 2012.

Mesmo com as diferenças profundas e as imperfeições, igualmente santos. Pedro constituído como rocha, o fundamento visível sobre o qual a Igreja seria edificada; o mesmo Pedro que foi chamado de “pedra de tropeço”, do grego “skandalon” (cf. Mateus 16, 23). Já Paulo é representado com uma espada que indica tanto a forma como foi martirizado por decapitação quanto o esforço realizado por levar a Boa Notícia de Jesus; a mesma espada que o lembrava ainda o passado de assassino dos primeiros seguidores de Cristo.

As fogueiras continuam acesas no Nordeste neste dia de São Pedro de 2019. Lembram o homem que pediu para ser crucificado de cabeça para baixo (a cruz invertida tornou-se então um símbolo do papado muito antes de ser associado ao satanismo, ao anticristo); e lembram também aquele que, de assassino, deixou-se assassinar. Sim. É dia de celebrar São Pedro e, para os que não sabem, São Paulo também.

*Davi Lemos é jornalista

29 de junho de 2019, 20:27

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