O conflito Arábia Saudita-Irã e a sucessão do Profeta – por Davi Lemos

Iranianos carregam cartazes do clérigo xiita Nimr al-Nimr executado pela Arábia Saudita no primeiro sábado de 2016
06 de janeiro de 2016, 07:00

O rompimento das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita configura-se como novo capítulo da disputa entre xiitas e sunitas, iniciadas pouco tempo após a morte do profeta Maomé, há quase 14 séculos. A cisão teve início quando era discutida a sucessão do fundador do Islã – resumidamente, os xiitas defendiam que os novos líderes deveriam vir da família do profeta.

A briga atual, porém, começou quando os sauditas executaram, no último sábado (2), o clérigo xiita Nimr al-Nimr, que condenava o tratamento dado à minoria da população na Arábia Saudita, que é um país majoritariamente sunita. Al-Nimr não era um terrorista e foi morto por um crime de opinião. A reação entre os xiitas pode tornar ainda mais imprevisível o destino dos países de maioria muçulmana, bem como a de seus aliados no Ocidente.

É preciso recordar que a Arábia Saudita é o berço do wahhabismo, linha do sunismo que dá sustentação ideológica e religiosa ao Estado Islâmico – recorde-se ainda que, nos países de maioria xiita, como Iraque e Irã, há certa liberdade de culto para as comunidades não-muçulmanas, como as cristãs.

O Irã é condenado pelo Ocidente porque defende o regime sírio de Bashar al-Assad. Mas a Arábia Saudita oprime brutalmente a minoria xiita e está sob um regime absolutista, sob o silêncio do mesmo Ocidente. O que fica claro neste caldo é que as disputas no Islã não são meramente religiosas, mas já nasceram no campo político e desdobraram-se na esfera do culto.

Ainda hoje os xiitas acusam os sunitas de terem suprimido dos escritos de Maomé as indicações para a sucessão hereditária do profeta. Por sua vez, os sunitas desaprovam o culto realizado pelos xiitas a pessoas importantes para a religião – prática que se aproxima da veneração dos santos entre os cristãos católicos. Para os xiitas, as palavras do imã têm o valor do que está escrito no alcorão, uma vez que esta autoridade religiosa é vista como mediadora entre Deus e os homens, que consegue alcançar o sentido oculto das escrituras.

Outra diferença é que os sunitas, além do Alcorão e da Lei Islâmica, seguem também a Suna, que é um compêndio dos atos do profeta – daí provém a designação sunita. Este ramo majoritário do Islã realiza uma atualização dos escritos islâmicos a partir das mudanças da época, enquanto os xiitas são considerados tradicionalistas.

A crise entre Irã e Arábia Saudita expõe, principalmente para os ocidentais, uma maneira também distinta de vivência religiosa. Enquanto para o mundo ocidental fundado sobre valores cristãos a mistura entre religião e política é um “acidente de percurso” ou ao menos algo não projetado no início, no Islã não há uma separação clara, mas um princípio de que a fé deve estar integrada aos destinos políticos do povo.

Não é possível prever qual a consequência desse conflito xiita-sunita; mas é preciso ter em conta que as motivações não serão somente religiosas, mas políticas e econômicas (não esqueçamos que no Oriente Médio estão os maiores produtores de petróleo). E o Ocidente cristão (ou pós-cristão), com sua inconsistência diplomática baseada no multiculturalismo, é posto na berlinda.

Davi Lemos é jornalista. Trabalhou no jornal A Tarde, na Tribuna da Bahia, no Correio da Bahia e cobriu as eleições de 2010 pelo Portal Terra. Foi assessor da Comissão de Cultura da CNBB. Ele escreve quinzenalmente sobre Religião no Toda Bahia. E-mail: davi_lemos@hotmail.com