Jesus, princípio da piedade – por Davi Lemos

Serra da Piedade, Caeté (MG)
20 de janeiro de 2016, 07:00

Na semana do Natal de 2015, eu conversava com um querido primo sobre assuntos variados como política, família, religião, quando ele, em determinado momento do diálogo, disse: “Jesus não fundou uma religião”. Realmente Cristo não trouxe um manual com regras, mas tornou-se solidário a nós, expandindo o seu próprio corpo. E isso teve consequências importantes para a história mundial.

Quando os cristãos eram perseguidos pelo temido Saulo, Cristo aparece-lhe em Damasco e pergunta: “Saulo, por que me persegues?”. O episódio narrado no livro dos Atos dos Apóstolos, dá a noção desta solidarização que mencionei. Perseguir um cristão era persegui-lo e fazer um bem a um pequenino era a Ele também que se fazia. E com Saulo, depois chamado Paulo, esta rede de irmãos não estava mais restrita ao povo de Israel, da primeira aliança, mas a todos.

Cristo estabeleceu o encontro como princípio religioso; não poderia ser chamado cristão aquele que vivesse somente para seus interesses, cumprindo preceitos dissociados do cuidado com o outro, com a salvação do outro, não somente da alma, mas corpórea também. O historiador Thomas Woods Jr mostra que a solidariedade não era um princípio universal. Esta era restrita às pessoas com mesmo sangue, da mesma classe social. Realizar um bem sem esperar algo em troca? Isto era loucura.

Woods Jr dá o exemplo do soldado romano Pacômio, que era pagão e integrava o exército do imperador Constantino, no século IV. Muitos soldados padeciam de fome e de doenças, e Pacômio ficara surpreso ao ver que alguns de seus colegas ofereciam assistência sem realizar qualquer discriminação. Ao saber que eram cristãos, indagou: que tipo de religião é essa que inspira tais atos de generosidade?

Mesmo Voltaire, um dos mais contundentes críticos do catolicismo no século XVIII, mostrou-se admirado: “Talvez não haja nada maior na Terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana”. A filosofia clássica, por sua vez, considerava a piedade e a compaixão como emoções patológicas.

Sêneca, filósofo estóico do século I, escreveu que “o sábio poderá consolar aqueles que choram, mas sem chorar com eles (…) em toda a sua mente e no seu semblante estará igualmente imperturbável. Não sentirá compaixão”.

A esta expansão do corpo, a tradição cristã chamou de Corpo Místico, ou Igreja. A compaixão de Cristo foi tão definitiva que ele entrega seu próprio corpo como alimento. Na Cruz, demonstrou que tinha maior amor por seu Corpo Místico que por seu próprio corpo físico. A história nos mostra uma multidão de homens e mulheres que viveram esta radicalidade da entrega ao outro. Paulo, que era perseguidor, entregou sua vida e morreu como mártir. E há outros tantos como Santo Antônio de Pádua, São Francisco ou Irmã Dulce.

Sim, durante a história muitos cristãos cometeram atrocidades. Não viveram a piedade e a compaixão. Mas qual exército é lembrado somente por seus desertores?

A piedade e a compaixão ainda são hoje um escândalo, um incômodo grande demais para a mentalidade contemporânea. Porém há esta semente plantada há dois mil anos, que talvez esteja somente adormecida, submersa no individualismo atual.

Davi Lemos é é jornalista. Trabalhou no jornal A Tarde, na Tribuna da Bahia, no Correio da Bahia e cobriu as eleições de 2010 pelo Portal Terra. Foi assessor da Comissão de Cultura da CNBB. Ele escreve quinzenalmente sobre Religião no Toda Bahia. E-mail: davi_lemos@hotmail.com